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terça-feira, 6 de outubro de 2009

SALIM MIGUEL

Resumo da Palestra Proferida por Salim Miguel no Sesc Vila Mariana

São Paulo, 10 de setembro de 2009

Começo por uma afirmação: os árabes, ou para me restringir mais, os libaneses têm uma incrível capacidade de integração e adaptação ao meio onde se encontram, tanto os imigrantes quanto seus descendentes. No caso do Brasil, podemos encontrá-los na administração, na política, nas finanças, no comércio, na indústria, na agricultura, na ciência, na tecnologia, nas profissões liberais, na arte e na cultura. Em pesquisa que fiz, nem seletiva nem extensiva, encontrei cerca de meia centena de escritores, vou citar apenas uns poucos dos já mortos, pois estes não reclamam. Dois ficcionistas: Cecílio J. Carneiro, médico e autor de um romance pioneiro a respeito da imigração, A Fogueira, que recebeu o segundo prêmio num concurso latino-americano promovido nos anos 40 pelos EUA, dividido em duas etapas, na primeira cada país selecionava aquele que considerava o melhor romance, na segunda, presidida pelo escritor John dos Passos, o primeiro lugar foi dado ao peruano Ciro Alegria, com Grande e estranho é o mundo, e o segundo a Cecílio J. Carneiro. O outro ficcionista é Emil Fahrat, que foi jornalista e publicitário, autor de Dinheiro na estrada, romance inovador onde pelas cartas da mãe a um dos filhos ficamos sabendo o que se passa no Líbano e também no Brasil. Dois mestres da língua: Said Ali, um dos mais importantes filólogos do Brasil e Antônio Houaiss, com quem colaborei na Enciclopédia Delta-Larousse, foi filólogo, enciclopedista, ensaísta e tradutor do Ulisses de James Joyce. E dois jornalistas: David Nasser, que formou dupla com o fotográfo Jean Manson e Nássara, tambem compositor e chargista.

Na maior parte do mundo constata-se a presença de libaneses, limito-me a falar de cinco em três países: Gibran Khalil Gibran, que escreveu em árabe e inglês e deixou vários livros, entre eles O Profeta, Edward Said com o seu importante Orientalismo e George Athye, durante anos um dos diretores da Biblioteca do Congresso em Washington, quando recolheu vasto material que hoje constitui importante acervo sobre os países do Oriente Médio, autor do livro Al-Kindi, sobre um sábio do século IX; os outros dois são o argentino Juan José Saer, que o escritor Ricardo Piglia diz ser uma referência na literatura universal, e o líbano/francês Amin Maalouf, autor entre outros de As Cruzadas vistas pelo Árabes e do romance Samarcanda que traça a trajetória do poeta persa Omar Khayam.

Para chegar às minhas raízes ancestrais necessitaria ir pelo menos até os fenícios, até Tiro e Biblos, chegar a Baalbek, avançar pela península ibérica onde os árabes deixaram sua marca em tudo e citar pelo menos dois nomes: Ibn-Kaldum e Ibn-Sina, mais conhecido no ocidente como Avicena e o “aleph be te” que deu origem ao nosso alfabeto.

Navegar é preciso, é abril de 1927, um navio está deixando Beirute, nele uma família, três crianças e três adultos, que tentam conter a emoção e as lágrimas; já estão em Marselha, não podem prosseguir viagem devido a doença do pai Yussef, alojam-se em uma pensão, Tamina Athye escreve para os irmãos no EUA contando o que ocorreu, no terceiro dia um patrício muito solícito vem preveni-los para que se cuidem, sugere que paguem quinze dias da pensão, fiquem com algum dinheiro e depositem o resto em um banco que ele conhece, Tamina e Hanah tentam alertar Yussef mas ele confia nas pessoas, e nunca deixará de fazê-lo; até hoje continuam procurando o patrício e o dinheiro. Quando chegam os recursos, o primeiro navio não esta indo para a América do Norte mas para América do Sul, e no entardecer do dia 18 de maio de 1927 a família se encontra inteiramente perdida no cais de porto da Praça Mauá. É graças a um motorista de carro-de-praça (na época não se dizia “táxi”), que tenta decifrar os rabiscos numa caderneta de Yussef e através de sinais leva-o até um poste e vai dizendo “luz”, primeira palavra claramente entendida do português, e Yussef logo pensa “luz-nur”, que arranjam um destino. O motorista faz sinal de que sabe o endereço, não fica longe; logo estão na casa de um patrício e a conclusão é que o motorista e o patrício, ao contrário do homem de Marselha, são solidários, ele não aceita que se hospedem numa pensão, tem lugar na casa, em três dias encontram Sada a irmã de Yussef, que mora em Magé, a família se demora uns tempos por ali, porém Magé não difere de Kfarsourun e é menor que Amiun. Yussef, que não tem nenhuma vocação para mascate ou comerciante, pretendia ser professor primário de árabe nos EUA, lembra-se de uns “brimos” na tal de Santa Catarina e agora estão em Florianópolis, onde também não há lugar para eles, acabam numa pequena comunidade, São Pedro de Alcântara, primeiro núcleo de colonização alemã no Estado. Mas ali também não está dando certo, em 1931 chegam a Biguaçu, que será o novo lar, a nova “maksuna” dos Miguel.

Aqui mudo o foco da minha conversa e passo para a primeira pessoa: ao chegar em Biguaçu estou com quase oito anos e já tenho vontade de ler e vou decifrando algumas palavras encontradas em fotos de jornais. No final de 1932 estou terminando o primeiro ano no grupo escolar, certa manhã a professora bate palmas, chama atenção dos alunos, me aponta, diz: “vejam só, chegou ontem mal sabia algumas palavras de português misturadas com árabe e alemão, é turco, hoje já fala, lê e escreve melhor do que vocês, não se envergonham?” Me chamou e com um abraço me deu de presente um tinteiro, eu desabei num choro incontrolável, não sei se pelo elogio ou pelo “turco”, mesmo porque a essa altura o império otomano já não dominavam aquela região, pois o Líbano a partir de 1918 passou a ser um protetorado francês.

Minha fome de leitura aumentava, não bastavam as histórias, as lendas, os casos e causos que meus pais contavam nas modorrentas noites biguaçuenses, por vezes falando de suas próprias vidas, ela,que estudara russo e inglês, filha de família tradicional empobrecida, ele de família pobre, sabendo um tantinho de francês; logo os dois não só falavam como também já liam em português.

Aí começa a influência de minhas raízes ancestrais, porém devo muito a Biguaçu, considero me um Líbano-Biguaçuense, filho da perdida Kfarsourun e da real e mítica Biguaçu. Nós somos basicamente o que a infância e adolescência nos fez e eu sou o resultado de tudo isso, das estrepolias com a criançada, das conversas com meus pais e da influência de duas figuras que me marcaram para sempre: o preto velho Ti Adão, rijo nos seus quase cem anos, macumbeiro, curandeiro, que sabia tudo de ervas medicinais, incontável contador de histórias, algumas se aproximando das que meu pai trazia lá do Líbano e ele certamente de Angola. Duas delas com pequenas modificações fui encontrar faz pouco em um livro de Jean Claude Carrière. Vamos a elas: chega ao palácio do sultão um mercador e entre suas bugigangas está um espelho, objeto desconhecido naquelas paragens, o sultão se olha por menos de trinta segundos e desata num choro que dura três horas; Nasrudin, figura recorrente, chora sem parar por mais de 12 horas, até que o sultão intrigado pergunta: “Eu, que me vi e não gostei do que vi, chorei por três horas; por que você esta chorando há mais de 12?” E Nasrudin: “Sultão, Vossa Grandeza se viu por menos de trinta segundos e eu que o vejo durante o dia todo?”. A outra: Nasrudin leva um corte de tecido para o alfaiate lhe fazer uma calça, este lhe diz que demorará mais de um mês; demora seis, Nasrudin reclama: “Não entendo, Deus levou seis dias para fazer o mundo e você me leva seis meses para aprontar uma simples calça!” E o alfaiate: “Veja só que mundo temos e a perfeição da calça que lhe fiz.”

A outra figura a quem devo muito é o livreiro, poeta, cego João Mendes. Eu andava pelas casas de vizinhos e parentes em busca de velhos jornais e revistas, de almanaques e foi por ali que fiquei sabendo o nome de dois escritores brasileiros: Machado de Assis, no soneto “A Carolina” e Cruz e Sousa, no poema “Litania dos pobres”. Jornais e revistas não matavam a minha fome, até que certo dia ganhei coragem e fui fazer uma proposta ao dono da pequena livraria. João Mendes contrapropôs, eu não podia levar os livros para casa, mas podia lê-los ali o tempo que quisesse, em voz alta, pois ele tinha igual fome de leitura. Isso durou alguns anos . Quando conto esta história as pessoas me perguntam que livraria fantástica era essa? João Mendes usou de expedientes: pedia livros emprestados a um parente em Florianópolis, encomendava livros em consignação às editoras, não podia devolver todos os livros encomendados, forçava parentes e amigos a comprar alguns, com isso prestava um serviço às editoras e até formou novos leitores. Líamos um pouco de tudo e para mostrar a variedade limito-me a citar As dores do mundoAs alegres comadres de Windsor de Shakespeare, sonetos de Camões, Os Três Mosquiteiros de Alexandre Dumas, O Coração de Edmundo D'Amicis, Júlio Verne com seu premonitório Viagem ao fundo do Mar, Memórias de um Sargento de Milícia de Manuel Antônio de Almeida e até tremendos folhetins como Buridan ou Os Mistérios da Torre de Nesle de Michel Zevaco. Por vezes João Mendes me dizia seus poemas, porém jamais tive coragem de lhe falar de meus rabiscos. de Schopenhauer.

A venda de seu Zé ou Zé Turco ou Zé Gringo vivia mais num regime de troca que mal dava para o sustento da família. Dona Tamina tinha de administrar tudo aquilo, durante a guerra 1939/1945 não havia mais condições de lá continuar; em 1943 estávamos morando em Florianópolis. A primeira descoberta que fiz foi a Biblioteca Pública do Estado de Santa Catarina e, como tinha um certo faro para o que é válido, passei a selecionar mais minhas leituras, foi ali que pela primeira vez me deparei com algumas histórias tradicionais do mundo árabe, seja nos livros de Malba Tahan (pseudônimo do matemático Melo e Souza) e de Humberto de Campos, que reescrevia lendas de países do Oriente.

A partir de 45/46 uma turma de jovens começou a se reunir, discutíamos o que estávamos lendo e de manuscritos em punho dizíamos “leia o meu que eu leio o teu”. Em 1948, surgia a Revista SUL, carro chefe do movimento cultural que se tornou conhecido como Grupo Sul. Nesses anos, entre os muitos livros que me marcaram destaco: Dom Quixote de Cervantes e As Mil e uma Noites em edição integral, e logo me questiono por que não incluo outros. A essa altura meu sonho de infância de ser jornalista e ficcionista começava a se concretizar, eu publicava críticas, crônicas e contos em jornais e revistas e em 1951 aparecia nas Edições Sul meu primeiro livro Velhice e Outros Contos, onde já se percebe a influência do narrar árabe. Durante anos escrevi e rasguei muito mais do que publiquei, só em 1979 com o livro de contos A Morte do Tenente e Outras Mortes, que brotou de uma história contada por meu pai, encontrei o que considero meu estilo e a estrutura narrativa na qual situações e personagens são recorrentes, podem ser protagonistas ou figurantes. Uma dessas figuras é o Preto Velho Ti Adão, que repetia uma frase que me acompanha até hoje: “Eu sei o que sei, sei o que não sei, e o que não sei é mais do que aquilo que sei”.

Refiro-me agora a NUR na escuridão, romance que me deu mais visibilidade e que levei quase vinte anos para terminar. Tendo como pano de fundo determinado período da vida brasileira, recria a trajetória de uma família de imigrantes libaneses que aos poucos vai esquecendo seu sonho de ir para os Estados Unidos e acaba se tornando brasileira, sem negar suas raízes ancestrais. O livro teve uma aceitação muito positiva, tanto da crítica quanto dos leitores, várias edições e prêmios. Desse universo de manifestações destaco três: a carta de um leitor para um jornal, em que ele dizia se sentir frustrado, pois ouvira tantos elogios de amigos, lera tantos artigos favoráveis que acabara comprando o dito livro, e concluía indagando “No que é que pode me interessar o dia a dia de uma família?”. A outra é o telefonema de uma jovem de Belém do Pará, começa dizendo que fora muito difícil conseguir um exemplar e mais ainda meu telefone, não havia terminado a leitura porém necessitava falar comigo, sentia-se dentro da trama, se emocionara até as lágrimas e raramente um livro lhe dissera tanto. Fiz uma pergunta meio ingênua: “Você tem algo a ver com libaneses?” e ela: “É preciso ter para gostar do seu romance?” Só aí me dei conta dos motivos da demora para terminá-lo, porque das quinhentas páginas havia cortado quase duzentas, é que embora eu tratasse da família de libaneses não queria uma história que só interessasse a eles, eu ambicionava mais, que a história tocasse imigrantes e seus descendentes das mais diferentes etnias. A terceira é do começo deste 2009: num telefonema o antropólogo George Zarur, com quem posteriormente me encontrei em Brasília, dizia ter quase certeza de que o patrício solidário que nos acolheu no Rio de Janeiro naquele dezoito de maio de 1927 era o avô dele. Ainda não chegamos a uma conclusão, embora haja pormenores que reforcem a hipótese, esse avô, que costumava amparar patrícios recem-chegados meio perdidos no Rio de Janeiro, era de uma cidade próxima de Amiun, terra dos Athye e não distante de Kfarsourun terra dos Miguel.

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